5# COMPORTAMENTO 23.7.14

     5#1 RIVALIDADE ALM DO LIMITE
     5#2 DESASTRE  VISTA
     5#3 SINAL AMARELO PARA A MACONHA
     5#4 A HISTRIA DO MENSAGEIRO DA MORTE
     5#5 A CIDADE DOS ABSURDOS
     5#6 FILHOS NO, OBRIGADO
     5#7 ONDE ERRAMOS?
     5#8 VIVA JOO UBALDO RIBEIRO
     5#9 IMIGRANTES DA COPA

5#1 RIVALIDADE ALM DO LIMITE
O antagonismo Brasil/Argentina ganhou cores mais intensas nesta Copa, com direito a confuses generalizadas. Saiba qual  o risco de que esta disputa ultrapasse as quatro linhas e comprometa a amizade, o turismo e o comrcio entre as naes vizinhas
Raul Montenegro (raul.montenegro@istoe.com.br) e Samuel Rodrigues, de Buenos Aires

A tradutora Slvia Barbosa foi a uma cafeteria de Buenos Aires para assistir  partida entre Brasil e Camares ainda na primeira fase da Copa do Mundo. Capixaba de Nova Vencia e h sete anos residente na Argentina, ela no se conteve e soltou um grito aps o gol de Neymar que desempatou o jogo. Todo mundo me olhou feio, diz ela, que no usava camiseta da Seleo, nem qualquer adereo verde-amarelo. Depois do terceiro gol, simplesmente mudaram de canal. Naquela altura da Copa, cena semelhante j no era incomum para um portenho que acompanhava os jogos no Brasil. As relaes entre torcedores brasileiros e argentinos, que no comeo do Mundial variavam entre desconfiadas e bem-educadas, foram se deteriorando velozmente. As animosidades cresceram a tal ponto que no dia da final, 13 de julho, descambaram para a pura violncia, dentro e fora do Maracan e nos arredores da Fan Fest, em Copacabana.

Com seu jeito debochado e passional, carregando uma bagagem histrica de cnticos provocativos contra os rivais brasileiros, os argentinos j chegaram ao Pas entoando a musiquinha Brasil, decime qu se siente. De incio, a maioria da torcida brasileira, apesar da surpresa com a troa explcita ao futebol ptrio, reagiu com esprito esportivo e logo criou contravenenos tambm em forma de msica (leia na pg. 51). Mas no foi o suficiente para os encrenqueiros dos dois lados, que partiram para a briga, gerando uma tenso que h muito no se via entre as duas naes. Sentimentos de revolta e indignao com a atitude dos adversrios passaram a ganhar um contedo nacionalista fora de lugar e de sentido, fomentado inclusive por meios de comunicao dos dois lados da fronteira.

VIOLNCIA - Depois de brigas em Copacabana aps a final da Copa, perdida pela Argentina, brasileiros destroem camiseta da rival (acima) e turistas ateiam fogo  bandeira do Brasil

Levas de turistas brasileiros em Buenos Aires e argentinos pelas praias brasileiras so prova de excelente relao, camaradagem e mtua admirao pela cultura e particularidades de cada um. O problema sempre foi o futebol, este esporte que teima em imitar a vida, confundindo paixes e invejas. Nesse ponto, antigas  e algumas recentes  manifestaes de racismo por parte de faces de argentinos ajudaram a turbinar as hostilidades. Macaquito, como sinnimo de brasileiro,  a palavra-chave. Ela j aparecia em 1920, quando o jornal argentino Crtica publicou uma charge retratando os jogadores da Seleo Brasileira como smios, acompanhada de um texto intitulado Macacos em Buenos Aires. Na poca,  bom lembrar, os brasileiros receberam solidariedade do prprio povo argentino. A histria vrias vezes teimou em reaparecer. Imagens disponveis no YouTube mostram, por exemplo, uma Bombonera lotada para a deciso do Boca Juniors contra o Santos, em 1963. O coro da torcida  estonteante: Pel, hijo de puta! Macaquitos de Brasil! O dirio Ol, do grupo Clarn , em 1996, antes de um jogo contra o Brasil, estampou a manchete Que venham os macacos e precisou pedir desculpas. Penso que a mdia potencializa a rivalidade, s vezes de forma exagerada, disse  ISTO o editor do Ol, Mariano Dayan. As generalizaes,  claro, so incorretas. A maioria dos argentinos nem sabe que essa expresso existe, mas alguns a utilizam para irritar o adversrio durante o jogo, diz o jornalista paranaense Ariel Palacios, autor de dois livros sobre a Argentina. No Rio, porm, durante a Copa, um argentino fez pose e gestos de macaco para um fotgrafo negro que registrava o acampamento dos hermanos.

Do lado brasileiro tambm no h apenas flores, como demonstram as campanhas publicitrias que transformam os argentinos em caricaturas grotescas. Eu me surpreendi com o grau de fanatismo antiargentino dos brasileiros nesta Copa. Esperava que eles pelo menos ficassem neutros, diz o pesquisador Guillermo Schoua, especialista na histria do clube portenho Boca Juniors. Aos 36 anos, ele acredita ser de uma gerao diferente. Se a Argentina no ganhasse a Copa, ento que vencesse outra equipe do continente. O socilogo Ronaldo Helal, coordenador do Grupo de Pesquisa Esporte e Cultura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, acredita que at os anos 1980 a Argentina majoritariamente tratava o Brasil como exemplo de futebol bonito. Mas foi justamente nessa poca que, por aqui, teria crescido o sentimento antiargentino.

Alm do histrico macaquito, no pode ser desprezado o papel que teve na rivalidade a nova cano dos argentinos, exaltando Diego Armando Maradona em detrimento de Pel, em plena Copa no Brasil.  incrvel que ela tenha mexido at com quem no costuma se deixar levar por essas coisas. A musiquinha me deixava de cabelo em p, admite a professora paulista Adelina Chaves, que mora h mais de 30 anos na Argentina. Era boba e injusta. Comemorei as duas Copas que eles ganharam, mas a Argentina ganhar uma Copa do Mundo no Brasil, dentro do Maracan? Ah, isso no! At mesmo o pesquisador Guillermo Schoua criticou a letra. Para mim, soou ridcula. Se tem algo que nenhum brasileiro fez foi no parar de chorar, como diz a letra. De acordo com o antroplogo Jos Garriga, doutor pela Universidade de Buenos Aires, a construo de um adversrio  uma estratgia de vendas eficaz.

Fora dos gramados sempre houve tenso entre Brasil e Argentina. O passado de crises ao longo da histria no  pequeno. Uma das mais complicadas remonta a 1852, quando o governador de Buenos Aires Juan Manuel de Rosas foi derrubado pela oposio interna com a ajuda das tropas imperiais brasileiras. Durante a Segunda Guerra Mundial, outra divergncia sria, com o Brasil do lado dos aliados e o governo vizinho neutro, mas muito mais prximo do Terceiro Reich. A construo da hidreltrica de Itaipu, iniciada nos anos 1970, criou rusgas entre a ditadura brasileira e a argentina. As Foras Armadas dos dois lados sempre viram o vizinho como o adversrio blico potencial e durante toda a segunda metade do sculo XX a diplomacia bilateral foi contaminada pela disputa sobre quem teria hegemonia na Amrica do Sul. Exemplo eloquente foram as divergncias sobre a participao no Conselho de Segurana da ONU. No comeo dos anos 1990, a Argentina queria uma cadeira no conselho. No final desta dcada, envoltos pela crise econmica, os argentinos j aceitavam ajudar o Brasil a assumir a liderana local. Em 2000, passaram a apoiar o Pas, afirma Ariel Palacios.

Hoje em dia os atritos mais constantes acontecem nas alfndegas por causa de medidas protecionistas argentinas para barrar a entrada de produtos brasileiros. O volume de transaes entre as duas naes cresceu significativamente depois da criao do Mercosul e o Brasil  hoje o maior comprador de produtos do pas vizinho, enquanto os argentinos ficam em terceiro lugar em nosso ranking de exportaes. Entre os principais parceiros comerciais do Brasil, a Argentina  aquele que mais compra produtos manufaturados, ou seja,  um aliado importantssimo para manter de p a indstria nacional. Apesar disso, nos ltimos anos vrios entraves burocrticos foram criados para afetar as importaes de produtos brasileiros (leia abaixo). Esses obstculos afetaram negativamente as exportaes do Brasil e so criticados por empresrios dos dois lados. O protecionismo saltou aos olhos quando Guillermo Moreno, ex-secretrio de Comrcio Interior argentino, passou a editar ordens no escritas para deter a entrada de mercadorias estrangeiras em 2010, provocando constantes filas de caminhes nas alfndegas. O ex-secretrio tambm telefonava para empresas aconselhando-as a deixar de comprar certos produtos. Ele foi uma doena que desestruturou fluxos comerciais. Conversei com vrios empresrios que queriam comprar, mas sofriam presso poltica para que no o fizessem, afirma Alberto Pfeifer, diretor-executivo do Conselho Empresarial da Amrica Latina. As barreiras tiveram um impacto grande e afetaram a importao de mercadorias brasileiras e a exportao das argentinas, diz ele, que acredita que a relao bilateral pode melhorar caso o Mercosul volte a se pautar pela agenda econmica que norteou a fundao do bloco, em vez de se concentrar em torno de temas polticos, como acontece atualmente. A historiadora Maria Lgia Coelho Prado, do Laboratrio de Estudos de Histria das Amricas da Universidade de So Paulo (USP), diz que a rivalidade Brasil-Argentina comeou nos gramados e migrou para outras esferas da sociedade.

CIRCULANDO - Policial esvazia Vila Madalena, em So Paulo, aps confuses entre brasileiros e argentinos durante o torneio

Para ela, no entanto, apesar dos problemas pontuais as relaes bilaterais so boas e a populao de ambos os pases no se v como inimiga, ao contrrio. Na Copa, os exageros partiram de ambas as partes, mas esses excessos no podem contaminar a relao entre os povos e a diplomacia que as duas principais foras do continente compartilham em reas como a poltica e a economia. Quando prevalecem sentimentos de nacionalismo exacerbado e de excluso, todos perdem. Ningum acredita que a controvrsia gerada, e potencializada, pela ltima edio da Copa do Mundo v prejudicar os dois pases no turismo. A rivalidade fica s no futebol. Talvez tenha se manifestado mais agora, mas a verdade  que os argentinos amam o Brasil, afirma a assessora de turismo argentina Fabiana Nusinovich. Vale tambm para os brasileiros que lotam Buenos Aires. Quando os preos so bons, eles vm mesmo. No Brasil, o presidente da agncia de turismo Agaxtur, Aldo Leoni Filho,  da mesma opinio: O nmero de viagens  Argentina vai subir por causa do cmbio, que est favorvel. Um jantar em Bariloche custa metade do que em So Paulo. Ao lado da cidade andina, ele coloca Buenos Aires como o destino mais procurado. Turistas como o marqueteiro argentino Kevin Zolotow confirmam a tese de Leoni Filho. Fui vrias vezes de frias ao Brasil, conheci brasileiros em viagens e as relaes sempre foram positivas.

Analisando o amargor de rivalidades deixado pela Copa, o psiquiatra e psicanalista Marco Antonio Coutinho Jorge anota que o amor e o dio so duas faces de uma mesma moeda. Somos na verdade seres muito agressivos, diz ele. Estamos o tempo inteiro sublimando nossa violncia com brincadeiras ofensivas, por exemplo. E o prprio futebol  uma encenao da guerra, com uma equipe tentando invadir o campo da outra e conquistar o reduto adversrio, que  o gol. O esporte em si no  agressivo, mas  uma colocao civilizada da nossa agressividade. Exemplos disso, sustenta o psicanalista, so as palavras com sentido blico usadas no jogo: ataque, defesa, capito e chute de canho, por exemplo. De acordo com Coutinho Jorge, a rivalidade possui ainda um outro motor: o conceito freudiano do narcisismo das pequenas diferenas  estamos sempre querendo nos diferenciar de quem  mais parecido conosco.

Para Dayan, jornalista do Ol, quando a rivalidade termina em agresses fsicas, como as que ocorreram em confronto no Rio, fica evidente que h algo de errado na sociedade. Acho que alguns poucos no entenderam que isso  do folclore e nada mais. Quando h violncia ou agresso,  porque o sujeito no entende o que  o esporte. O antroplogo Garriga, que se juntou como observador participante a torcidas organizadas na Argentina para estudar o comportamento dos chamados barrabravas, os violentos torcedores daquele pas, acredita que esse sentimento  vlido enquanto o ambiente  respeitoso. A rivalidade faz parte da competio e o esporte  uma competio. O problema  quando ela se agrava e produz atos de violncia ou discriminao. 


5#2 DESASTRE  VISTA
Escolha de um notrio empresrio de jogadores como coordenador de selees mostra que, apesar da crise em que est mergulhado o futebol brasileiro, a CBF no quer mudar nada
Helena Borges (helenaborges@istoe.com.br) e Rodrigo Cardoso (rcardoso@istoe.com.br)

Na esteira da melanclica despedida da Seleo da Copa do Mundo  o Brasil ficou na quarta colocao ao perder por 3 a 0 da Holanda dias depois de, na semifinal, ser surrado pela Alemanha por 7 a 1 , um aceno na direo da renovao do futebol brasileiro insurgiu como uma obrigao para a cpula da CBF. Em seu primeiro ato aps o fiasco, o presidente Jos Maria Marin despediu praticamente toda a comisso tcnica, encabeada pelo treinador Luiz Felipe Scolari e pelo coordenador de selees Carlos Alberto Parreira, longe dos microfones. Publicamente, na quinta-feira 17, o cartola falou sobre os novos rumos da Seleo. Melhor que no o tivesse feito. O anncio do ex-atleta  que, ao encerrar a carreira, fez fama lucrando com o futebol por meio da compra, venda e renovao de contratos de jogadores  para comandar a reestruturao do futebol foi uma afronta aos que sonhavam com uma revoluo ecoando na sede da CBF, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O presidente da entidade optou por trocar peas para nada mudar na maneira de gerir o esporte no1 da nao ao escolher Gilmar Rinaldi, ex-goleiro tetracampeo do Mundo em 1994, para o cargo de coordenador de selees. A ascenso dele s piora o cenrio de desconfiana que paira sobre a entidade, tida como morada de negcios escusos e politicagem. Na CBF, a dimenso poltica  a locomotiva e o projeto tcnico fica a reboque dela. Em horas como essa, o cartola pensa: Quem  o ex-atleta que, uma vez nomeado para um cargo executivo, pode garantir que a autonomia siga com a gente?, diz Eduardo Tega, diretor da Universidade do Futebol.

RINDO DE QUE(M)? - Rinaldi entre Jos Maria Marin ( esq.) e Marco Polo del Nero: poltica  frente do projeto tcnico

At aceitar o convite, Rinaldi agenciou jogadores durante 14 anos. E, no diagnstico da crise do futebol brasileiro, os empresrios que, depois da Lei Pel, passaram a controlar o destino de nossos craques e mand-los cada vez mais cedo para o Exterior so apontados como um dos grandes responsveis pelo declnio da qualidade do futebol praticado pelo pas pentacampeo do mundo. Ser, ento, que Rinaldi no faria lobby por jogadores pautado na valorizao financeira do atleta? O ex-jogador Tosto, tricampeo do mundo em 1970, enxerga com enorme desconfiana a nomeao do ex-goleiro. Comeou mal o processo, com a escolha de uma pessoa que por 14 anos teve como interesse fazer negcio para lucrar com o futebol. Tudo bem que ele diga que rompeu com essa funo, mas as ligaes que ele tem com as pessoas continuam.

O novo coordenador de selees foi superintendente do Flamengo por dois anos antes de agenciar atletas como Adriano Imperador, que est sem clube, Fbio Santos e Danilo, esses dois ltimos jogadores do Corinthians. Ironicamente, a classe dos agenciadores foi duramente criticada pelo Secretrio Nacional de Futebol do Ministrio do Esporte, Antnio Jos Carvalho do Nascimento Filho. Os empresrios so uma praga, principalmente nas selees de base. Qual o estmulo que os clubes vo ter para formar jogadores se eles os levam? Est na hora de pensar em uma restrio. O ex-atleta e hoje deputado federal Romrio fez coro via Twitter. Tive o desprazer de trabalhar com o Gilmar no Flamengo.  incompetente e sem personalidade. Posso afirmar que Rinaldi vai fazer da CBF um banco de negcios para defender os seus interesses.

 parte todas as ressalvas sobre a nomeao de Rinaldi  e tambm do novo tcnico da Seleo, que provavelmente seria anunciado at a tera-feira 22 , a reestruturao do futebol brasileiro de longe se dar pela simples troca de pessoas.  preciso aprender com os nossos erros. O impacto da pfia participao brasileira na Copa fez cair o vu de discusses rasas sobre o que acontece com o futebol por aqui.  preciso fazer um bom diagnstico sobre a cultura de formao de nossos treinadores e atletas para uma correo de rumo.

Scolari, por exemplo, foi jogador nos anos 70 e aprendeu com treinadores da dcada de 50 e 60. A prtica dele repete essa poca e assim acontece com ex-atletas da dcada de 80 que, hoje, so treinadores. O Brasil  um dos poucos pases onde no h capacitao profissional para tcnicos, ao contrrio do que acontece nas 54 federaes que fazem parte da Uefa. Para dirigir uma equipe numa liga principal europeia, o treinador passa por um processo que pode durar at quatro anos. E a cada dois anos ele tem de revalidar essa licena, encarando um processo de qualificao. A nossa cultura de formao de treinadores  oriunda do ex-jogador, do profissional de educao fsica. Mas o futebol exige conhecimentos, habilidades e atitudes que podem ser desenvolvidas por meio de estudo como qualquer outra profisso, diz Tega, da Universidade do Futebol. Em relao  carncia de craques como Neymar Jr., h outra explicao. 

Antigamente, os talentos apareciam de forma espontnea, em campinhos improvisados. Com o processo de urbanizao, a partir da dcada de 70, esses espaos foram sendo substitudos por escolinhas de futebol. Nelas h uma mecanizao dos gestos, uma vez que o professor, muitas vezes um ex-atleta, diz ao garoto o que e como ele deve fazer. Isso inibe a criatividade, a prtica do esporte de maneira ldica, que so marcas do nosso futebol. Em conversas entre Ministrio e CBF, houve preocupao quanto s categorias de base, em especial a sub15. O Ministrio Pblico do Trabalho trata esses jovens como atletas de rendimento, o que o Estatuto da Criana e do Adolescente considera irregular. Hoje o MP multa alguns clubes, fazendo diversas equipes temerem investir nessa faixa etria. Nos Estados Unidos esses meninos j estariam trabalhando em concentrao. Estamos discutindo desde antes da Copa uma alterao na Lei Pel para criar a categoria desporto de formao, o que daria um resguardo jurdico para os clubes investirem nesses garotos, afirma o secretrio Nascimento.


5#3 SINAL AMARELO PARA A MACONHA
Enquanto a indstria da cannabis legal cresce nos EUA, a Casa Branca se preocupa com o fato de os adolescentes desconhecerem os malefcios da droga, e o Uruguai adia seu projeto de legalizao
Fabola Perez (fabiola.perez@istoe.com.br)

A indstria da maconha, recm-legalizada e com potencial bilionrio, enfrenta os primeiros problemas de ordem prtica nos Estados Unidos. A liberao do uso recreativo da erva nos Estados do Colorado e Washington tem feito os governos arrecadarem milhes em impostos cobrados em cima de uma das drogas mais populares do mundo. A criao de leis para regular o mercado e a elaborao de campanhas preventivas, entretanto, no seguem o mesmo ritmo. Estimativas da consultoria ArcView Market Research apontam que as vendas legais da maconha passaro de US$ 1,4 bilho para US$ 2,34 bilhes neste ano. Mas o vigor do mercado despertou uma preocupao na Casa Branca: um relatrio nacional sobre estratgias para o controle de drogas recm-divulgado mostrou que um dos desafios mais srios da poltica do governo Obama nessa rea  a percepo crescente entre adolescentes de que a maconha  pouco prejudicial  sade. A revelao mostra a necessidade de acompanhar e fiscalizar uma indstria nova e historicamente irregular. Como a droga est sendo legalizada,  natural que a percepo dos jovens sofra alteraes, diz Lucas Maia, pesquisador do Centro Brasileiro de Informaes sobre Drogas da Universidade Federal do Estado de So Paulo (Unifesp). O uso medicinal da maconha fez com que ela perdesse o glamour e deixasse de ser uma substncia, sobretudo, ligada  rebeldia e  identidade de grupos.

ALERTA - Dos adolescentes que apresentam desempenho ruim na escola, 66% j fumaram maconha. Abaixo, loja onde a cannabis  vendida legalmente para maiores de 21 anos nos EUA

O documento foi publicado um dia aps entrar em vigor em Washington a nova legislao para abertura das lojas que comercializam a droga. No Colorado, a substncia  vendida legalmente desde o incio do ano. Nos dois Estados, porm, vale a regra de que s pode adquirir maconha recreativa quem tem mais de 21 anos e em uma quantidade-limite de 28 gramas. Ainda assim, milhes de americanos mais jovens tm acesso  droga. As consequncias disso, segundo o relatrio, so negativas. Dos adolescentes que apresentam desempenho ruim na escola, por exemplo, 66% j fumaram maconha. Para o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Cincias Criminais, Cristiano Maronna, assim como todas as drogas lcitas, o uso da cannabis requer preveno. Uma das regras tem de ser dificultar o acesso a menores de idade, diz. A previso do governo Obama  destinar para o prximo ano US$ 25 milhes em polticas contra as drogas, mas as inovaes da iniciativa privada exigem polticas eficientes para conter o consumo indiscriminado. No Colorado, surgiram produtos comestveis de maconha com altos ndices de THC, composto mais potente da maconha, diz Maronna. Precisa haver uma preocupao em limitar a quantidade de THC na erva.

OPOSTOS - Mujica, presidente do Uruguai: controle total da cadeia de produo da cannabis. Obama, presidente dos Estados Unidos: indstria nas mos da iniciativa privada

O modelo adotado nos EUA  o oposto daquele que o presidente do Uruguai, Jos Mujica, deseja colocar em prtica. O governo uruguaio pretende ter o controle total da cadeia de produo enquanto o governo americano deixa a comercializao e a distribuio nas mos da iniciativa privada. Por ter uma proposta mais complexa, Mujica decidiu adiar para 2015 a legalizao da maconha no pas, antes prevista para ocorrer este ano. Se fizermos tudo de qualquer jeito, assim como os EUA esto fazendo,  moleza, disse. No basta tirar a nossa responsabilidade e deixar que o mercado se ajeite. Se fizermos isso, as empresas vo tentar vender a maior quantidade possvel. Maia, da Unifesp, concorda: Sem a fiscalizao necessria para controlar a ganncia dos produtores, a indstria da maconha pode se transformar no que  hoje a indstria do lcool e do tabaco, acredita.

Para os cofres pblicos, a maconha legal tem trazido benefcios. Economistas da Universidade Estadual do Colorado estimam que a cannabis movimente US$ 605,7 milhes no Estado, o que geraria uma arrecadao de US$ 10,1 milhes em impostos. Com mais dinheiro em caixa,  possvel investir em campanhas educacionais e ajudar os dependentes. Os investimentos so sempre insuficientes, e os mercados regulados tm mais condies de aplicar recursos em tratamentos, conscientizao e informao, diz Luciana Boiteux, coordenadora do grupo de pesquisa em Poltica de Drogas e Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um efeito colateral benfico da legalizao pode ser constatado no Mxico. L, o cultivo da erva caiu drasticamente, o que impactou positivamente a luta contra o narcotrfico. 


5#4 A HISTRIA DO MENSAGEIRO DA MORTE
Prisioneiro de guerra dos nazistas, o italiano Enrico Vanzini  um dos ltimos integrantes vivos do comando especial de Dachau, grupo designado pela SS para fazer o trabalho que ningum queria: colocar os corpos nos fornos e inciner-los
Janaina Cesar, de Cittadella, Itlia 

"Em Dachau conheci o inferno e aquela horrvel experincia marcou para sempre minha vida. As lembranas daqueles dias difceis da Segunda Guerra Mundial ainda so vvidas para Enrico Vanzini, 91 anos. Capturado pelos alemes, foi levado para o campo de concentrao de Dachau, no sul da Alemanha, onde viveu por nove meses. L, entrou no comando especial, chamado de sonderkommando, e tornou-se uma espcie de mensageiro da morte. Foi encarregado do trabalho que os nazistas no queriam fazer: colocar os corpos dos mortos nos fornos crematrios e inciner-los. Por vergonha, culpa e medo de que duvidassem de sua histria, calou-se por mais de seis dcadas. Nem sua famlia sabia como foi sua vida nesse perodo. Hoje,  o ltimo sonderkommando italiano vivo. Uma rara testemunha das atrocidades que o ser humano  capaz de cometer.

PASSADO - Vanzini antes de conhecer os campos de concentrao, ainda jovem, quando foi servir na Grcia pelo Exrcito italiano que havia invadido o pas

No sabia o que um sonderkommando fazia. S soube quando me jogaram no forno, conta Vanzini. No tive escolha. O prisioneiro que acabava no comando especial sabia que era um caminho sem volta porque, em algum momento, os nazistas o matariam para no deixar testemunhas. Vanzini escapou porque o conflito j estava no fim, mas viveu na pele os horrores da guerra. s vsperas de completar 18 anos, viu evaporar seu sonho de se tornar jogador de futebol ao ser convocado pelo Exrcito. Designado a servir na Grcia, que havia sido invadida pela Itlia, ficou no pas at setembro de 1942, quando a Alemanha declarou guerra  Itlia. Foi colocado em um trem rumo a Mnaco, onde trabalhou em uma fbrica de armas por um ano e meio. O local foi bombardeado e ele fugiu com outros dois soldados italianos a p. A idia era chegar at a ustria. Depois que acabaram os suprimentos, roubavam batatas, cenouras e repolho das plantaes para sobreviver. Conseguiram ajuda de uma italiana, mas ela era espi e os entregou  Gestapo.

Separados, cada um tomou um destino diferente. Vanzini seguiu para Dachau. Era um lugar onde voc entrava, mas no saa nem morto porque queimavam seu corpo, diz ele, que l perdeu a identidade. Virou o nmero 123343 do galpo 8. Havia 60 galpes no campo de concentrao onde cabiam 130 pessoas distribudas em beliches sem colcho de quatro ou cinco andares. Depois de terem os corpos desinfetados, ganhavam finos pijamas listrados. Como era outubro e j fazia frio, os prisioneiros dormiam abraados para se aquecer. Na minha primeira noite dormi abraado a um homem vivo e acordei abraado a um homem morto. Morreu de frio durante a noite, relata.

HOJE - Aos 91 anos: ele levou mais de seis dcadas para contar sua histria at para a famlia

Ele sobreviveu comendo arroz com verme e po duro. Designado a trabalhar externamente na reconstruo de uma ferrovia, celebrou a oportunidade, pois era a chance de procurar comida no lixo. Porm, carregar trilhos sem luvas no inverno europeu, com a neve fresca queimando a pele, lhe custou os movimentos da mo direita. De volta  rea interna de Dachau, virou sonderkommando. Os generais da SS escolhiam quem eles queriam para esse servio. Se a pessoa se recusasse a integrar o grupo, morria, diz o historiador Cludio Vercelli, do Instituo de Estudos Histricos Gaetano Salvemini. Na opinio dele, essa escravido da morte foi uma das partes mais terrveis do nazismo. Essas pessoas conviveram com o bito antes que ele chegasse, porque sabiam que aquele seria o destino delas tambm, explica Vercelli. Quem estava no comando especial tinha direito a mais comida porque precisava ter foras para carregar os cadveres. 

Foram apenas algumas semanas na funo. Todos os dias cerca de 300 pessoas eram incineradas. Uma vez percebi que um prisioneiro ainda estava vivo e disse ao soldado da SS. Ele mandou coloc-lo no forno, conta. O trabalho ocorria  noite porque a fumaa que saa das chamins era menos visvel e o odor no era percebido por quem dormia. Certa vez, viu chegar um trem cheio de judeus. Separados das mulheres e crianas, os homens foram metralhados sem d pelos soldados e tiveram os corpos incinerados. Em um dos ltimos dias em Dachau, foi chamado por um membro da SS at a cmara de gs. Ao abrir a porta, quase vomitei, conta Vanzini. Havia 50 corpos l dentro. Tive de peg-los e carreg-los at os fornos. A expresso deles era horrvel, dava para ver o desespero no rosto daquela gente. Essas vtimas morreram abraadas e era difcil separ-las para coloc-las nos crematrios. Eu puxava um brao e sentia os ossos se quebrarem.

Com o fim da guerra, Vanzini voltou  Itlia e refez a vida como motorista. Optou por no contar a ningum o que viveu e testemunhou, mas pesadelos sempre o acompanharam. O silncio sobre seu passado foi quebrado quando foi descoberto por uma jornalista. S ento decidiu contar a seus familiares sua histria. Quando foi preso na Grcia, Vanzini pesava 86 quilos. Quando deixou o campo de concentrao, aos 23 anos, no dia 29 de abril de 1945, pesava apenas 29 quilos. Para expiar de vez o passado, ele decidiu retornar a Dachau na companhia da mulher e dos dois filhos. Sabia exatamente onde ficavam os galpes, as casas, a cozinha, o chuveiro, a cmara de gs e os fornos. Vivi uma mistura de emoes, mas foi libertador.


5#5 A CIDADE DOS ABSURDOS
Novo empreendimento imobilirio, que inclui parque temtico, hotis e o futuro maior shopping do mundo em ruas climatizadas, consolida Dubai, nos Emirados rabes Unidos, como a capital mundial da extravagncia 
Paula Rocha (paularocha@istoe.com.br)

Sobre as areias escaldantes do deserto, um osis verde abriga plantas tropicais e at uma cachoeira. A poucos metros de distncia, uma rua cheia de teatros, cinemas e letreiros luminosos se assemelha muito a Times Square, em Nova York. Mais alguns passos e outra via d ao turista a sensao de passear pela famosa Oxford Street, em Londres. Parece loucura? No para os arquitetos e engenheiros responsveis pelo projeto de um novo empreendimento imobilirio em Dubai, capital dos Emirados rabes Unidos, que deve ficar pronto em 2020. Batizada de Mall of the World (Shopping do Mundo), a futurstica construo promete ser uma cidade dentro da cidade, com teatros, cinemas, parques de diverso, mais de 100 hotis, prdios residenciais e um shopping center, que ser o maior do mundo, com mais de 700 mil m, desbancando o atual Dubai Mall, com 500 mil m. Para interligar as edificaes sero construdos mais de sete quilmetros de vias climatizadas  tero temperatura agradvel no vero e no inverno o teto retrtil poder ser aberto. Com essa iniciativa, a capital refora seu ttulo de cidade com a arquitetura mais extravagante do mundo.

H 50 anos, a atual regio de luxo, e meca do consumo, era apenas um deserto. Ao colocar em prtica uma poltica de baixos impostos, a cidade atraiu megacorporaes internacionais e se tornou um grande centro financeiro e de turismo. Hoje, Dubai ocupa o stimo lugar entre os destinos mais procurados por viajantes internacionais no mundo, recebendo em mdia dez milhes de turistas a cada ano. Grande parte desses visitantes conhece a cidade a trabalho, mas muitos chegam a Dubai atrados exatamente pelas monumentais obras arquitetnicas e de engenharia, como o Burj Khalifa, atualmente o maior edifcio do mundo, com 828 metros de altura, o Ski Dubai, gigantesco resort de ski indoor com mais de 22 mil m2, e as maiores ilhas artificiais do planeta, que, vistas do espao, formam a imagem de palmeiras e de um impressionante mapa-mndi. Tudo bancado pela exorbitante riqueza gerada pelo petrleo, descoberto na regio em 1966.

A situao financeira dos Emirados permite esses exageros arquitetnicos desnecessrios e, ao mesmo tempo, provocativos, afirma Enio Moro Jnior, coordenador do curso de arquitetura e urbanismo do Centro Universitrio Belas Artes, de So Paulo. Segundo o arquiteto, Dubai  considerada um grande laboratrio para a arquitetura e a engenharia mundiais, por possibilitar que sejam colocadas em prtica solues tcnicas para prover conforto trmico, iluminao adequada, gerao de energia e reciclagem de lixo, por exemplo. Mas, do ponto de vista urbanstico, a cidade no  um bom modelo, pois no parece haver uma interao real com o meio externo. Tudo  muito artificial, como num cenrio, afirma Moro Jnior.

Na opinio do turismlogo Luiz Godoi Trigo, que esteve em Dubai em 2004 e  professor titular do curso de lazer e turismo da Universidade de So Paulo (USP), todas essas megaobras s so possveis por conta da administrao autoritria dos Emirados, governados pelo sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum. Em Dubai no h nenhuma entidade civil que se oponha a essas construes, nem mesmo so feitos relatrios sobre os impactos ambientais de projetos dessa magnitude, diz Trigo. Outro problema apontado pelo especialista  a questo da mo de obra estrangeira contratada para executar esses projetos, geralmente trabalhadores humildes da ndia, Bangladesh e Paquisto, que moram nos canteiros de obras em situaes anlogas a trabalho escravo. No se fala muito disso porque Dubai  boa em marketing. Todos sabem das maravilhas de l, mas poucos se preocupam com a questo ambiental ou de trabalho, diz. Um dos maiores absurdos da cidade com apreo pelas extravagncias e recordes. 


5#6 FILHOS NO, OBRIGADO
Por que um em cada cinco casais brasileiros, a maioria jovens, opta por no ter crianas, numa tendncia que s cresce
Camila Brandalise (camila@istoe.com.br)

Seis meses depois do comeo do namoro, a assistente administrativa Mnica Rodrigues, 27 anos, se viu em uma encruzilhada. Quero ter filhos, disse-lhe o namorado, Fbio Ayub Brasil, 28, ao que ela retrucou: Eu no. Se fosse assim, ele sugeriu, era melhor que os dois se separassem. Mesmo apaixonada, Mnica se manteve firme. Afinal, a cena de segurar um beb nos braos no fazia parte do futuro que ela vislumbrava. Depois de uma semana, o namorado concluiu que isso no seria um empecilho para a unio. Hoje, quatro anos depois, ele  ainda mais entusiasta da ideia de no ter filhos do que a assistente administrativa. Quando casarem, Mnica e Fbio formaro um lar. Uma famlia, por que no?, s que sem rebentos, engrossando a estatstica de cerca de um em cada cinco casais brasileiros que optam por no ter filhos. Entre os mais jovens, a tendncia parece ser ainda mais forte  42,8% tm entre 25 e 34 anos.

Os lares formados apenas por um casal so um entre os vrios arranjos familiares que fogem da imagem tradicional de famlia, formada por homem, mulher e crianas. No Brasil, a taxa de 19% de lares sem filhos  um indcio de um movimento. H pouco mais de dez anos, esse nmero era de 14%. Entre eles, 20,7% so casais em que ambos tm renda. Para esse caso h um nome especial: so os dinks (double income, no kids  em portugus renda dupla, sem filhos). Ter menos filhos ainda acompanha a diminuio de fecundidade, as mudanas no comportamento feminino e o processo de urbanizao, como aponta Tas Santos, do Fundo de Populao das Naes Unidas. O custo do filho  maior e deixa de ser atraente a ideia de uma famlia muito numerosa que, no campo, quando eram necessrios mais braos na agricultura, fazia sentido, diz Tas. Segundo um levantamento de 2013 feito pelo Instituto de Vendas e Trade Marketing (Invent), um filho pode custar, dependendo da faixa de renda da famlia, entre R$ 2 milhes (classe A) a R$ 407 mil (classe C), do nascimento at os 23 anos.

OPO  - Antes de casar, Roberta Souza disse ao marido, Thiago Alvarenga, que no queria ser me. "H muita presso social sobre a escolha"

Para as mulheres, lidar com essa deciso parece ser um pouco mais complicado. As pessoas tm dificuldade para aceitar o fato de que nem toda mulher quer reproduzir, diz a advogada Tatiana Lambert, 33 anos. Dizem que vou mudar de ideia e falam sempre em marcos temporais: quando me formar, quando fizer 30 anos, quando encontrar o amor... adoro crianas, mas o desejo de ser me  inexistente. Na crtica da psicanalista sua Corinne Maier, autora de Sem Filhos  40 Razes para No Ter (Intrnseca), a experincia  glamourizada demais. Ser me  visto como algo elegante. As mulheres so encorajadas a isso porque supostamente eles nos fariam felizes, afirma. A identidade presa  maternidade no se sustenta mais, afirma Isabel Cristina Gomes, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de So Paulo (USP) e coordenadora do Laboratrio de Casal e Famlia.

Segundo Laura Carroll, autora do livro The Baby Matrix: Why Freeing our Minds From Outmoded Thinking About Parenthood & Reproduction Will Create a Better World (em traduo livre, Por que Libertar Nossas Mentes da Viso Antiquada sobre Paternidade e Reproduo Criar um Mundo Melhor), convivemos por tanto tempo com crenas que estimulam as pessoas a terem bebs que elas se tornaram normas. No segui-las, portanto, mostraria que h algo errado conosco, afirma. Mas no h. Ter filhos vem deixando de se tornar um passo automtico na vida para se tornar uma opo. Existem homens e mulheres que tm vocao para ser pai e me, outros no.  preciso pensar sobre isso e sobre toda a responsabilidade, diz Edson Fernandes, coautor do livro Sem Filhos por Opo (editora nVersos). Na pesquisa, percebi que os mais conscientes disso so os jovens, tambm mais livres de preconceitos. Isabel Gomes, da USP, concorda. Surgiu uma igualdade de gneros, pelo menos entre os casais mais novos e de dupla carreira, afirma.

SOLTOS - Bianca Morelli e Marcos Vieira so casados h dois anos e no pensam em ter filhos, pois no querem abrir mo da liberdade

Casada h cinco anos, a analista financeira Roberta Souza, 31 anos, falava desde criana que no queria ter filhos. Com dez anos, cuidava da minha irm mais nova. Via o trabalho que dava e j percebia que no tinha essa vontade, diz. Meu marido quer ter e acha que vou mudar de ideia. A publicitria Bianca Zanon Morelli, 28 anos, e o analista de tecnologia da informao Marcos Garcia Vieira, 27, casados h dois, tambm decidiram viver sozinhos. Estamos numa fase do casamento em que todos perguntam dos filhos, mas quando explico o porqu de no querer ter, vejo que muitos entendem, afirma Bianca. Para ela,  preciso ter um certo dom para ser me. Tenho muitas amigas que desde adolescentes tm vontade. Eu nunca tive o sonho, nem cogitei, diz. Nos Estados Unidos, onde o ndice de casais sem filhos  similar ao do Brasil, h organizaes para trocar experincias e informaes sobre o estilo de vida childfree (livre de filhos). A autora Laura Carroll faz parte do grupo Aliana Nacional pela Paternidade Opcional e ressalta que l foi criado, inclusive, o dia childfree. A proposta, segundo ela,  fazer com que essa opo seja mais bem aceita pela nossa sociedade.


5#7 ONDE ERRAMOS?
O Brasil, que j foi referncia no tratamento da Aids, v aumentar o nmero de casos, enquanto a mdia mundial diminui. Mas  possvel reverter esse quadro
Wilson Aquino (waquino@istoe.com.br)

A culpa pelo crescimento do nmero de novos infectados com o vrus HIV no Brasil pode ser dividida entre a diminuio das campanhas de preveno e testagem, feitas pelo governo e pelos movimentos sociais, e a negligncia das pessoas que passaram a acreditar que a Aids, doena causada pelo vrus, deixou de ser letal graas aos novos tratamentos e remdios. Relatrio divulgado na quarta-feira 16 pelo Programa Conjunto das Naes Unidas sobre HIV e Aids (Unaids) revelou a triste novidade: no Brasil, que j foi referncia global no tratamento da doena, o nmero de novos casos aumentou enquanto a mdia mundial diminuiu (leia quadro).

GRUPO - O maior nmero de novos casos  entre jovens gays masculinos, que no viram as mortes do passado

O Ministrio da Sade (MS) alega que o crescimento apresentado pelo Brasil  semelhante ao dos Estados Unidos e pases da Europa, que tiveram aumento mdio de 8%. E frisa que o Pas  o que mais compra e distribui camisinhas no mundo  625 milhes de unidades, em 2013. O maior nmero de novos casos  entre jovens homossexuais masculinos, uma gerao que cresceu sem presenciar a morte em massa de pessoas infectadas nos anos 1980. O presidente do Grupo Pela Vidda (Valorizao, Integrao e Dignidade do Doente de Aids) do Rio de Janeiro, o psicanalista George Gouvea contesta a afirmao do MS. O programa brasileiro sempre deu certo, mas tem claudicado nos ltimos oito anos. Para ele, as pessoas se tornaram displicentes. O tratamento avanou e o soropositivo hoje consegue viver com qualidade de vida. Mas isso no significa que a doena no continue matando.

A principal aposta dos cientistas brasileiros para conter o avano do HIV no Pas  a Profilaxia pr-exposio (PrEP), tratamento que consiste no uso dirio de antirretrovirais em grupos vulnerveis para reduzir o risco de transmisso caso sejam expostos ao HIV. Os medicamentos antirretrovirais j so usados no tratamento de pessoas portadoras do vrus. Desde maro, pesquisadores da Fundao Oswaldo Cruz (Fiocruz) acompanham 400 voluntrios que esto tomando o antirretroviral Truvada e mantendo a rotina sexual. Segundo a pesquisadora Brenda Hoagland, os voluntrios sero acompanhados por um ano. O estudo poder fornecer informaes importantes ao Ministrio da Sade sobre quais seriam as necessidades estruturais para a implementao desse mtodo de preveno, que ainda no est disponvel aos brasileiros, por carecer de registro do medicamento Truvada, diz Brenda.


5#8 VIVA JOO UBALDO RIBEIRO
Jornalista e escritor premiado, membro da Academia Brasileira de Letras, morre deixando um legado que ajudou a formar a cultura brasileira moderna

Um dos maiores autores de sua gerao, Joo Ubaldo Ribeiro morreu na madrugada de 18 de julho, em sua residncia, no bairro do Leblon, Rio de Janeiro, vtima de uma embolia pulmonar. O baiano de Itaparica, nascido Joo Ubaldo Osrio Pimentel Ribeiro, em 23 de janeiro de 1941, formou-se em direito na Universidade Federal da Bahia, mas jamais exerceu a profisso. Enveredou cedo para a literatura, vcio que manteve ao lado do cigarro e da bebida. Ao longo de seus 73 anos, escreveu incansavelmente. Publicou seu primeiro livro Setembro No Tem Sentido, aos 27. Trs anos mais tarde, veio o clssico Sargento Getlio, que virou filme. Em seguida, Ubaldo lanou Viva o Povo Brasileiro (1984), marco fundamental do romance moderno brasileiro. O maior talento de minha gerao. Nenhum de ns igualou Viva o Povo Brasileiro, um clssico, publicou o escritor Igncio de Loyola Brando, um de seus grandes amigos, no dia de sua morte.

PREFERNCIA - O escritor baiano Joo Ubaldo Ribeiro: "Detesto andar, fao isso porque sou chantageado pela famlia e pelos mdicos"

Muito da obra de Ubaldo caiu no gosto pblico pelas adaptaes. O Sorriso do Lagarto (1989) foi transformado em minissrie dois anos depois pela Rede Globo. A Casa dos Budas Ditosos(1999) virou pea de teatro com a atriz Fernanda Torres. Seu ltimo livro foi O Albatroz Azul (2009).

Ubaldo escreveu nove romances, alm de um volume grande de contos, ensaios, peas de teatro, adaptaes para a televiso e crnicas para jornais. Traduziu suas prprias obras editadas em lngua inglesa (h edies de seus livros em cerca de 17 pases). Festejado pelo pblico e pela crtica, foi vencedor do Prmio Cames (2008) e de dois Jabuti (1972 e 1984). Recebeu tambm os prmios Anna Seghers (Alemanha) e o Die Blaue Brillenschlange (Sua).

O escritor adorava uma boa conversa e ria muito dos contratempos cotidianos e das mazelas da prpria vida, que fez questo de manter simples, mesmo sendo imortal da Academia Brasileira de Letras desde 1993, sucedendo Carlos Castello Branco na cadeira nmero 34. Gostava de acordar antes das 8 horas, cuidava das plantas e caminhava pelo calado por cerca de 20 minutos. Depois de se exercitar, escrevia at as 11h, almoava e retirava-se para descansar s 14h30. Ao acordar, voltava a escrever at as 2h. Saa de casa mais para visitar amigos e bebericar no botequim Flor do Leblon. Detesto andar, fao isso porque sou chantageado pela famlia e pelos mdicos, declarou  ISTO, em 2002, confessando que tinha dificuldade em conviver com a velhice. Jorge Amado dizia que tinham lhe falado muito das alegrias da velhice, mas no lhe apresentaram nenhuma. Comigo  a mesma coisa. S conheo a preguia de me abaixar, me cansar para colocar sapato.


5#9 IMIGRANTES DA COPA
Ganenses que vieram para o Mundial pedem refgio no Brasil, mas o que eles querem mesmo  trabalhar no Pas
Mariana Brugger (marianabrugger@istoe.com.br)

Gana no passou da primeira fase da Copa, mas deixou uma herana: mais de 700 cidados que pedem refgio no Pas. Eles chegaram com visto de turista, concedido atravs da Lei Geral da Copa, menos exigente para quem comprovasse que viria para os jogos. Mas, uma vez em solo brasileiro, entraram com pedido de refgio, apesar de Gana no enfrentar guerra ou grave crise poltica. Os argumentos: perseguio religiosa ou devido a lutas por terras. Entretanto, o prprio governo ganense declarou que, atualmente, no existem problemas desse tipo no pas. O que explicaria, ento, a debandada? A Polcia Federal e o Itamaraty investigam por que tantos vistos foram liberados e se h algum grupo ou coiote (pessoas que cobram para ajudar a atravessar fronteiras internacionais) organizando a vinda dos ganenses.

OBJETIVO - Ganenses em Cricima: l  possvel conseguir mais rpido a carteira de trabalho

Ao todo, a embaixada brasileira em Acra, capital de Gana, expediu 8.767 vistos, sendo que 2.529 foram utilizados e 1.132 ganenses ainda esto no Pas. At agora, j foram concedidos cerca de 180 pedidos de refgio, e as cidades mais procuradas so Caxias do Sul (RS), Cricima (SC) e o Distrito Federal. A escolha pelas cidades no Sul tem uma explicao: o protocolo do pedido de refgio sai no mesmo dia, ao contrrio de So Paulo, por exemplo, onde levaria mais de um ms. E  com esse protocolo que se consegue a carteira de trabalho brasileira. 

O Comit Nacional para Refugiados (Conare), do Ministrio da Justia, tem um ano para entrevistar e avaliar os pedidos. Caso o refgio seja negado, eles so encaminhados para o comit de imigrao. Alguns no tm bilhete de volta e dizem que pagaram entre R$ 7 mil e 9 mil pela passagem. Tem muita coisa estranha, diz a Secretria de Defesa Social de Cricima, Solange Barp. 

